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A arte de sentir é a capacidade de se expressar.

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sábado, 5 de janeiro de 2013

Jantar a sós

Talvez dois ou até um quarto de hora.

- Pai, eu tenho chance?
- Mas quem não tem?

Uma cadeira vazia ocupada pela ausência de quem alí deveria estar.
- Pai, tenho vícios.
- Mas quem não tem? 

De sobremesa, culpa.
- Pai, eu tenho importância?
- Mas quem não tem?

E talvez dois, ou até três quartos de vida.
- Pai?
- Mas quem não tem?

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

20__


Um novo ano na mesma roda.
O início quer de tudo um pouco.
E o fim, de pouco um tudo.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Jogo monocromático

Foto: Taís Pinheiro

A lista a que me dei o trabalho de fazer era longa e trabalhosa. Nela, catalogadas por ordem de partida, minhas peças ganhavam suas respectativas causa de morte.
Eu gostava daquele jogo incerto de silêncio.

Os peões já haviam sido mortos pela minha insegurança.
A cavalaria,lançada de antemão, tropeçou em minhas falhas de incapacidade.
Os bispos, por sua conduta unidirecional, ficaram presos às minhas torres de descrença, vulneráveis à crença dos bispos opostos ao jogo.
E como tudo que é vazio, um dia se desfaz, as torres simplesmente foram expulsas do jogo por uma única rodada da cavalaria real.

Foi assim, em um ponto quase perdido e descrente, que o silêncio, meu amigo das incertezas, escureceu o caminho do campo oposto.
Minhas duas peças monocromáticas carregadas de um misto de um sentimento incerto, se moveram pelo caminho inimigo expelindo pelo medo, quase todas as peças escurecidas erguidas naquele tabuleiro.

A euforia descompassada de ambos os lados quebrou o clima silêncioso aliado ao meu desentender.
Perdi a rainha, num lançe estúpido de um peão escondido no canto esquerdo.
O rei, sozinho, dois quadrados além do local da execução brutal, ficou cambaleando inutilmente ao redor do sangue invisível a procura do assassino.
Duas casas o separavam da foronteira inimiga após a vingança vil da companheira.

A rainha branca, erguida pelo pudor da vida, avançou seis casas.
O viúvo, recuou uma.
O bispo, em sua conduta pragmática, fechou uma aliança com o rei aliado, símbolo do controle de seu reino fragmentado.

O rei, ainda sozinho, recua mais uma casa.
A cavalria real volta em seu " L" de luxúria de forma a cobrir o traçado radial do viúvo que, desarmado, recua mais uma vez.
A torre intocável, move-se para um lugar sem conexão com a jogada.
O rei, abismado com a locomoção enorme daquela torre, não recua. Apenas muda de posição.

A rainha, exalando o sucesso da jogada, não se contém com aquele movimento estúpido curioso, e avança as oito casas que a distanciava daquela peça oca em seu território.
Sem poder correr sem morrer, o pequeno rei fica estagnado em sua posição indicada.

- Cheque-mate, ela diz.
- Mate o cheque, ele disse.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Comum

Eu admirava a capacidade de repetição e alterações nas histórias daquela simpática senhora.
Incrível era aquele dom de remoer e reutulizar o bagaço.
Inútil, mas incrível.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Me

esqueci, mas não tão simples como um engano, de seu detalhe que me perseguia.
Algumas músicas já perderam o seu valor e as letras apagadas em meu livro de sexta- feira queimaram nos olhos escuros avermelhados.
Sorte, talvez, de não ter atribuído à Lua os status de cúmplice.
Azar, por assim ser, de ter feito as águas o meu recanto de recordações.
Mas agora que perdi minhas coordenadas imprecisas, assim como quem não quer achar um objetivo, não vejo mais razão de rabiscar palavras que só fariam você entender.
Meu ego ferido abestalhado sufocou o medo de te deixar partir assim como a nossa insegurança de prosseguir criou um imenso vácuo em nossos ouvidos.
Menti minha vida inteira a você dizendo que não tinha nada além de meu medo solitário.
Místico foi a sua despedida após aquele simples aperto de mão.
Verdadeiro, se não fosse por nossa repleta falsidade.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Extrema-unção

Ele tinha entrado pela porta com a indiferença do peso que a veste lhe trazia.
O livro escuro na mão trêmula reluzia nos olhos brancos do enfermo pulsante a viver.
As palavras me feriram pelo vazio impreciso em que me recuso a preencher.
Os olhos, já não mais brancos, ganharam o vermelho do sangue e a exaustão do tom.
O silêncio cortante me dilacerava dos pés aos pulmões com rajadas de dúvidas e sufoco.
Sem mais palavras, ele juntou as mãos dele às suas e fez em voz baixa a prece vocativa do perdão.
A cruz, preta ou azul, não trazia nada mais do que uma simples forma.
Os pensamentos mudos domaram sua cabeça e as pernas compridas arrastaram o corpo para fora da porta.
O toque gelado dos olhos-sanguíneos paralisou minha incógnita a ser escrita.
- Taís, eu vou morrer?
.
.
.
.

Eu tinha um não na ponta da língua e uma tímida dúvida do sim no centro de minha razão.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Quase

sorri depois de tanto tempo que não te via.
Mas tinha me esquecido, por uma fração de segundo , que o meu sorriso para você, não valia nada.